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  • Projeto Madre Teresa

Mane nobiscum: o clamor dos filhos de Deus

Atualizado: Jun 15



“Fica conosco, Senhor, pois cai a tarde e a noite já vem”. Um pedido, uma súplica, um interesse: aqui, mais uma vez, o mistério grandioso da relação entre Deus e o homem. À vista, encontra-se a relação. Sim, relação, proximidade, diálogo, interação, amizade. Deus e o homem: âmago da realização plena da vida humana. A antropologia teológica e os mergulhos nas entranhas do mistério da vida. Que sublime compreensão!


Gostaria de, à medida do possível, meditar sobre a passagem de Lc 24, 29 e o dia do encontro do Ressuscitado com os discípulos de Emaús. Não destacarei todos os que nos são possíveis, mas apenas alguns. Um primeiro elemento que parte como premissa é a singela certeza: Deus tem sempre muita paciência em nos ensinar. Tardamos, falhamos, fragilizamos a nossa relação com Ele, nos tornamos distantes pelas inconstâncias e tantas fragilidades, mas ainda assim, o Senhor sempre tão disposto a nos inserir no caminho. Somos tardos e lentos para crer, mas é somente Deus e sua grandiosidade que encontramos ao vê-lo. Somente a preciosidade da fraqueza de Deus em nos amar já nos basta, pois estamos assegurados de que no caminho não estamos sozinhos.


Viktor Frankl na obra Em busca de sentido, ressalta, em outras palavras, o seguinte: o fracasso do homem é viver sozinho, e por assim sê-lo, muitas vezes torna-se sinônimo de grande dor e inquietação. Honestamente, não conseguimos. Simplesmente, não conseguimos. Justamente dentro desse ponto gostaria de repetir: o cume da relação entre Deus e o homem e a beleza extraordinária do amor de Deus.

Lutemos para não esquecer: Deus não é indiferente às nossas realidades. O Senhor leva a sério a nossa eleição!


Mane nobiscum, na tradução, “Fica conosco, Senhor!” Sim, uma súplica. Por sinal, deve ser sempre a súplica dos filhos de Deus. Numa relação de proximidade, da consciência de sermos eleitos e amados por Deus, devemos lembrar que sozinhos não conseguiremos dar um sequer passo adiante. Que diálogo belíssimo! As centelhas do amor de Deus vão nos sendo reveladas, brotam no nosso coração e palpitam com a certeza de que, suplicar ao Senhor que permaneça conosco, é pedir que Ele nos configure. Diálogo apaixonante! É o Senhor que nos ama como filhos e nós, humildemente, suplicamos que sejamos ao menos um pouco mais dignos de amá-lo como Pai.


São muitas as situações de noite que enfrentamos diariamente. Interiormente, sentimos que a luz declina e a noite se aproxima nas nossas vidas. Situações de morte, sejam elas quais forem, nos atordoam e nos roubam a compreensão de que não estamos sozinhos. Os discípulos, àquele momento, caminhavam desenganados. “O sonho dourado e adorado era tão somente um sonho”. Como eles, muitas vezes também nós caminhamos sem esperança, com o olhar baixo, sem perspectivas de confiança na ação de Deus. Como somos lentos!


Onde estamos que não compreendemos que o Senhor não nos abandona? Onde estamos que ainda não acreditamos que o Senhor caminha conosco, e com sinais visíveis, nos apresenta sua presença e amizade? É com o Céu e a eternidade que sonhamos quando pensamos no sentido das nossas vidas. O homem que é honesto consigo mesmo é capaz de admitir que não está sozinho. Deus continua conosco.


Penso que aquele encontro com os discípulos tenha sido de tal modo especialíssimo. Se bem entendermos, aliás, ele também é convidativo. Somos, hoje, os filhos de Deus necessitados de sua presença e de sua amizade. Necessitados da certeza dos passos firmes que daremos nos abismos de Deus por simplesmente confiarmos em sua santa vontade. A fé consiste, nas tantas definições, na capacidade do homem estar inteirado com os abismos de Deus. O Senhor nos diz, claramente, todos os dias, suas verdades. Estamos dispostos a apresentá-lo também as nossas e suplicar que Ele fique conosco?


Esforcemo-nos para não esquecer: não daremos um sequer passo adiante sem a consciência de ter Deus como a grande e única razão de tudo. O nosso coração arde, assim como o dos discípulos, ao vê-lo, mas nós precisamos compreender que tipo de ardor é esse. Passa pela dimensão do sentimentalismo? Portanto, se assim for, lutemos para não mais torná-lo assim. Não o pode ser! O ardor deve ser sinal de impulso: devemos acolher o convite do Senhor de nos tornar seus amigos. Próximos, Deus nos quer próximos!


Por mais que as vicissitudes nos sejam apresentadas durante o caminho, devemos preservar a consciência sempre viva de que o Senhor está conosco. Depois que os discípulos viram Jesus, o coração deles queimava. Que belíssimo encontro deve ter acontecido naquele dia... O elemento alegria deve caminhar conosco sempre, pois, uma vez tendo nos deparado com Ele, já não vivemos os mesmos.


A alegria não é, aqui, temperamental, sermos extrovertidos, sorrirmos para todos os cantos. A alegria é estarmos seguros de onde e em Quem depositamos a nossa vida e descobrimos sentido. Durante este tempo difícil, por exemplo, temos a dispor inúmeras oportunidades visíveis de aceitarmos o convite sublime do Ressuscitado de permanecermos com Ele e de acreditarmos fielmente que é o Cristo de Deus, razão de nossas vidas.


Se não formos capazes de acreditar que a Ressurreição é mais forte do que a morte, devemos rever nossa fé. Se não formos capazes de acreditar que, em meio às mortes que vivemos, existe sempre um sinal visível da Ressurreição, supliquemos ao Senhor que transforme-nos. O Senhor nos torna divinizados com sua presença e nos lança nas entranhas do seu amor através da vida ressuscitada. Não seria, senão, uma grande proposta amorosa de Deus para nós?


Apresentemos ao Senhor nossas verdades, a nossa vida, os vasos de argila que carregamos. Supliquemos que Ele transforme a nossa insegurança na consciência de estarmos seguros no Amor. Deus apaixonado, Deus profundamente rasgado de amor por nós... Que todos os dias, humildemente, supliquemos a Ele que permaneça conosco e que nos amadureça na fé e no abandono, e que não o procuremos distante, pois o Senhor está sempre muito próximo.


Por Tatiane Medeiros

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