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Até quando as energias desta vida valerão a pena ser economizadas?


Vale fazer a pergunta que compõe o título mais uma vez. Das últimas semanas para cá, tenho feito a experiência de deixar nos posts uma espécie de “trabalho da consciência”, se é que assim poderíamos chamá-la, em sua forma mais rasa possível. Gosto da ideia de entronizar a pergunta para, a partir de então, desenvolver reflexões acerca dela.


Por exemplo, uma primeira consideração. Devemos nos perguntar, sempre que possível, para onde caminha o sentido de nossas vidas. O que estamos fazendo e por qual motivo fazemos? O nosso tempo é investido em quais tipos de atividade? Por qual motivo? Elas significam alguma coisa para mim? Temos a impressão de que a preocupação do homem é sempre com um fim de ter controle sobre o que está ao seu redor. Mas, neste caso, ter conhecimento e consciência não significa desejar controlar a situação.


E é preciso fazermos questionamentos como esses para entender em qual caminho estamos decidindo pisar com as nossas sandálias.


Com o advento de uma cultura absurdamente mais egocêntrica, individualizada, marcada por conceitos e distorções sociais distantes do Evangelho, é muito provável que, nos andarilhos das buscas por sentido, o coração do homem seja capaz de se perder. Os sucessos, vitórias e conquistas pessoais são sempre o anseio humano, pois, afinal de contas, ele está sempre procurando lugares onde possa encontrar felicidade. Por vezes, enganado, acha que pode comprá-la. Compra mesmo. Ele encontrou, sob consciência, o que para ele é felicidade. No entanto, não devemos absolutizar estes achados e fazer deles o centro da nossa plenitude. Passados alguns dias, logo os bens acabarão, os benefícios do momento desaparecerão, e restará um coração que continua procurando felicidade.


A busca parece não ter fim... investimos nosso tempo, passamos anos idealizando sonhos e planejando metas a serem colocadas em prática. Imaginamos um futuro que começa já no presente, mas muitas vezes continuamos perdidos no agora. Um resumo breve: onde estamos decidindo pisar com nossas sandálias?


O jovem, por exemplo, é alguém que, naturalmente, desenvolve habilidades de um sonhador. Imagina os sucessos que virão, pois sabe que é jovem e sua capacidade de tornar tudo novo é um carro chefe. Topa estar em muitos lugares, ama fazer descobertas, tem avidez e curiosidade para descobrir o que antes nunca foi visto.


Já ouvi inúmeros testemunhos de pessoas (aqui incluo jovens também) que relatam ter perdido tempo procurando a felicidade em lugares repletos de buracos vazios. Relacionamentos desconexos, desejo de possuir, “aproveite o hoje”, afetividade desregrada, dinheiro, riquezas, sucessos e realizações. Deus deve ser um acréscimo à lista, aquele a quem se recorre nas precisões e socorros. Claro, é pouco provável encontrar alguém que queira sofrer nesta vida. O sofrimento, também marcado pela cultura do imediatismo e do hedonismo, raramente é bem aceito. A felicidade deve vir a todo custo, e por isso, o homem encontra-se disposto a fazer tudo e sair por todos os lugares possíveis em busca dela. Sofrer, no entanto, não está em seus planos.


O problema talvez seja o seguinte: misturam-se conceitos de felicidade entre conceitos errados sobre prazer e satisfação. Se observarmos sob um novo olhar, a satisfação diz respeito sempre ao homem que, perdidamente apaixonado por sua imagem e suas próprias paixões, necessita de estabilidades. Que tipo de segurança é esta? Para onde será que caminha essa estabilidade? Para dentro de nós mesmos? Mergulhar no nosso interior sem a convicção de Quem está ao nosso lado pode parecer muito perigoso e um grande sinal de enaltecimento do ego.


Por isso, enquanto não encontrarmos um lugar para repousar o nosso cansaço e encontrar descanso satisfatório, não cansaremos de procurar. Investiremos todas as energias nessa busca, mas muito provavelmente morreremos sem ter feito a descoberta com sentido.


O mistério da Cruz. Doce e magnífico mistério da Salvação. O Cristo que, palpitando de amor ao Pai, ama-nos também. O Cristo que nos abre as portas para enxergarmos o que é ser feliz de novo. O Cristo que nos comunica para onde caminharmos e o verdadeiro sentido de tudo. O Cristo que nos constrange com seu amor e nos impele a ofertar o que temos e somos numa resposta de amor e gratidão. O Cristo que, estando sob o madeiro santo, nos comunica a vida feliz de verdade: abriu as portas do Céu para nós. O sentido está Nele! A felicidade está Nele! O sacrifício de Jesus uniu tudo em nós ao Pai: Ele concretizou a doação de si na entrega da Cruz e nos mostrou ser possível mantermos uma relação de filiação com o Pai novamente. O Cristo nos salvou e nos quer próximos a Ele! Embarquemos nos rumos da felicidade!


Quando o homem se depara com a Verdade, as outras que ele um dia encontrou tornam-se circunstâncias. O que fica é relativo diante daquele que é Absoluto. Quando o homem vive a experiência de encontrar a felicidade plenificada, ele é convicto. Estar convicto não significa, necessariamente, ser um perfeito reflexo da Verdade, mas ao menos um consciente. As lutas, sacrifícios, esforços e mortificações vão acontecendo, e junto delas, a descoberta do sentido perfeito de caminhar rumo à felicidade plenificada.


Não nos parece errado desejarmos a felicidade, e nem o é mesmo. Mas é preciso fazermos a pergunta que compõe o título, a fim de trazer ao coração a lembrança da decisão sobre as terras que escolhemos pisar. Até que ponto eu entendo sobre o meu desejo de ser feliz? Ser feliz, para mim, compete entrar na dinâmica da Cruz? Ser feliz compete carregar a Cruz? Se as terras forem terreno infértil, aquele que somente os nossos desejos importam e prevalecem, temos de rever quem é o agricultor.


Ao passo que já ouvi inúmeros testemunhos, também convivi com uma boa quantidade de pessoas que facilmente tendiam à vida frenética por buscarem felicidade onde não encontram. Não as culpo. Para elas, felicidade é algo desconhecido ainda... por esse motivo, por essas pessoas e por tantas outras as quais não tenho nem conhecimento, espero dar a vida. Desejemos também nós fazermos, diariamente, um encontro de conhecimento da Verdade. Que Ele esteja tão encarnado em nós a ponto de fazer-nos esquecidos de nossas próprias paixões para cedermos o nosso coração e nossa liberdade completamente ao Seus pés. Lembremos, nas palavras do Papa Francisco, que “a misericórdia não deixa ninguém para trás”.


Não há como ser um jovem segundo o coração de Deus se você não for capaz de amar e preferir mais o Senhor à você e suas próprias paixões. Desse modo, também não há como ser um adulto, idoso, nem tampouco um consciente maduro, independentemente da idade que carregue.


Quando nos deparamos com a felicidade plena – em outras palavras, com a Pessoa de Jesus –, gastar as nossas energias torna-se um desejo ardente uma luta diária. Investir a nossa vida sem poupar nada pela causa do Evangelho e daqueles que não o conhecem. Investir a nossa vida, completa e inteiramente pela evangelização e o anúncio Daquele que nos encontrou e nos fez compreender a felicidade: esse é o desejo de viver a liberdade encontrada.


Agora, lembro da figura de Dom Henrique. Este último fim de semana, recebemos a notícia de sua morte. Lembro que desde que o conheci, passei a salvar suas publicações nas redes sociais e deixá-las em destaque também. Grande homem e um profundo apaixonado pela causa de tudo: Jesus. Com sua morte, assim como a de tantos que contemplamos o investimento que fizeram por amor a Deus e ao seu povo, desejamos também nós avançarmos no desejo de nos consumirmos por amor a Deus.


Possuía um sorriso convicto de alguém que, tranquila e serenamente, já sabia o que era felicidade. Não importava mais os gozos fúteis desta terra... agora haveria de gozar da felicidade sem fim. Oh! Felizes devem ser eles e todos os santos, pois em vida, decidiram pisar as sandálias, com sabedoria e firmeza, em terras férteis e fecundas, onde sabiam que o Agricultor deveria fazer as plantações. Felizes são eles, que descobriram um tesouro à vista e fizeram dele o maior prazer e a plena satisfação. Felizes são eles, que não fizeram do desejo do Céu uma troca de interesses e nem uma recompensa de bens, mas precisamente um desejo ardoroso de se sentirem em casa, onde já não haverá mais a luta para buscar felicidade, pois já a vivem com Aquele que é. Felizes são eles!


Portanto, contemplando a vida dos santos e daqueles que empenharam sua vida na causa do Evangelho, fica-nos a pergunta novamente: até quando as energias desta vida valerão a pena ser economizadas? Por amor a Cristo e sua Igreja, seu próprio povo que não o conhece, gastar as energias será suficiente até que O encontremos na pátria celeste. Nunca trocá-lo pelo pouco que comumente nós trocamos, mas escolhê-lo. Nas palavras do Papa Francisco, “gastar a vida por uma causa nobre”. Escolher viver mais Dele do que de nós mesmos.


Escolher viver mais de seu coração do que de nossas paixões. Escolher acolher o seu amor e decidir que por ele queremos gastar a vida, sem nada reter em nós. Escolher ser ao menos uma gota de orvalho no oceano de Amor. Decidir não economizar as energias, mas investi-las na busca por Deus, essa será a decisão acertada daqueles que já, convicta e serenamente, sabem o que é ser feliz de verdade.


Saiamos em busca daqueles que caminham perdidos, frustrados e angustiados por tanto procurarem, mas nunca encontrarem a felicidade em sua medida mais certeira. Saiamos e mostremos ao mundo que o nome de Deus é Amor, e que dele provém a maior satisfação do homem: pertencê-lo. Ser feliz, ser livre, ser amigo do Amor.


Por Tatiane Medeiros

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